sexta-feira, 20 de junho de 2008

Tom Zé estréia o projeto Álbum Virtual

Laura Dantas, do A TARDE

O diálogo que Tom Zé mantém com a juventude deixou de ser uma mera casualidade para se transformar numa busca obstinada por formas alternativas de linguagem. “Sempre fui cúmplice da juventude por acaso, mas era somente aquela coisa da rebeldia que tinha feito essa ponte entre mim e os jovens. Agora que eu tento falar com eles, descobri que não sabia nada, aí fiz esse suicídio artístico de abandonar tudo o que me dava qualificação, abandonar a condição de bom letrista, de compositor de música brasileira, adulta, sofisticada, premiada no exterior, para tentar fazer pequenos espelhos e brincos, como os irmãos Villas-Boas, para atrair a juventude”.
Não por acaso, Tom Zé – que se autodenomina um “homem da Idade Média” – foi eleito, aos 71 anos, para inaugurar o Álbum Virtual, projeto lançado nesta sexta-feira, 20, na internet e que surgiu a partir de uma iniciativa do site Trama Virtual (um braço da gravadora Trama) de disponibilizar músicas gratuitamente na web. “A gente notou que algumas bandas estavam colocando todas as músicas do álbum na área do download remunerado (que permite que músicas sejam baixadas gratuitamente pelo internauta, enquanto o artista é remunerado por um patrocinador). Aí a gente se perguntou: 14 músicas constituem um álbum? Será que não faltam alguns elementos como a direção de arte, a ficha técnica, as letras etc.? Foi aí que veio a idéia de um site em que você pode baixar todas as músicas, mas também pode baixar a capa do CD, as letras...”, explica João Marcello Bôscoli, presidente da Trama.
O novo trabalho de Tom Zé, intitulado Danç-Êh-Sá Ao Vivo, gravado nos estúdios da Trama em 2007, em parceria com o Canal Brasil, traz nove canções, além de dois vídeos, encarte e fotos exclusivas. Patrocinado pela empresa VR, o material ficará disponível para download durante três meses. “Os próximos lançamentos serão Ed Motta, Cansei de Ser Sexy e Quinteto em Branco e Preto”, adianta Bôscoli, que pretende disponibilizar vários arquivos da gravadora.
Filosofia suicida – Desta vez, o verborrágico Tom Zé preferiu abrir mão da palavra para expressar seu “susto” com o resultado de uma pesquisa feita pela MTV e que revelava o excesso de hedonismo e individualismo dos jovens brasileiros. “Quando li, fiquei muito assustado e, dois ou três dias depois, estava resolvendo fazer o disco”.
Para se comunicar com essa juventude consumista, pessimisita e imediatista, Tom Zé optou por compor músicas somente com vocalizes, ruídos e onomatopéias. “Apesar disso, nunca escrevi tanta crítica política e social. Naturalmente isso vem cifrado nos tartamudeios que são compreensíveis em qualquer língua do universo e que ficam claro tanto na encenação quanto no próprio áudio”. A ausência de letras, segundo ele, também se justifica pelo desinteresse do jovem, apontado na pesquisa, pelas letras das músicas.
“Não estou dizendo que a juventude está ruim, mas tem uma parte da juventude influenciada pela filosofia dos Estados Unidos que é a filosofia de que o mundo não vale nada, que é para todo mundo estar decepcionado com a vida e ir lutar no Iraque, no Vietnã, na Coréia, no inferno. O rock é assim, os filmes são assim, a civilização americana suicida é assim”, dispara, sem perder a oportunidade de pôr o dedo em mais uma ferida do provincianismo local: “Pra que a gente adotar isso? Não somos um povo invasor, só estamos matando os nossos próprios índios aqui”.
Aliás, a ironia fina de Tom Zé se cristaliza a partir de certas declarações suas, consideradas por alguns interlocutores como puro sarcasmo, mas ele os contesta com veemência: “No caso desse refrão ‘tô ficando atoladinha’, fui lá no meio do mundo selvagem recolher uma pedra preciosa. Veja bem, estou dizendo que troco minha obra toda por essa música, troco tudo o que eu fiz por ‘tô ficando atoladinha’, morro de inveja porque é um metarrefrão microtonal e plurissemiótico. É difícil um artista conseguir tanta intensidade informacional, ser um portador de uma estética tão forte quanto esse refrão”.

A tarde on-line

Um comentário:

Kelly Hosana disse...

Isso me lembra aquela questão do copyright liberado, o quarto tipo de compartilhamento sugerido por Lawrence Lessig. (texto pirataria)