Após a leitura do texto O CARÁTER PSEUDO DA INCLUSÃO DIGITAL, de Denize Corre Araujo, decidi postar a matéria "O Morador da Rede", que escrevi para o Jornal da Facom em setembro passado.
. Algo que não foi tocado no texto de Denise, mas que abordo na matéria é o descompasso entre o público que se deseja atingir com projetos de inclusão digital e aqueles que realmente se beneficiam com iniciativas do tipo. Como está escrito abaixo, apenas 0,9% da população baiana de baixa renda acessa a rede gratuitamente, contra 3,8% da população de renda mais alta.
Outro ponto que é levantado no texto de Denise, que acaba por tornar o desfecho do artigo algo inconclusivo, é a pergunta “O que constitui uma real participação na rede ?”. Esse questionamento é vivido nos corredores da Faced, onde há quem discorde das diretrizes do projeto Tabuleiros Digitais, mencionado na minha matéria. No Tabuleiros, a ausência de filtros sobre os conteúdos visitados pelos usuários, torna comum o manejo de jogos em rede, sites de relacionamento, salas de bate papo e até mesmo páginas pornográficas [apesar da entrada nesse tipo de site ser explicitamente proibida pelos organizadores do projeto]. Tamanha liberdade é enxergada por muitos como um desacerto.
Há quem defenda o acesso restrito a conteúdos na web, argumentando que dar acesso à informação sem que nesse conteúdo haja qualquer relevância capaz de minimizar a exclusão não se trata de um fomento efetivo à inclusão digital.
Por seu turno, há aqueles que se posicionam a favor da plena democratização dos conteúdos acessados, e que acreditam que a elaboração de limites formais aos usuários seria um segundo processo de exclusão. “Não estamos abertos à censura. O programa visa atender à liberdade de informação, sendo que o indivíduo é orientado através de campanhas educativas ministradas pelos monitores do projeto”, me disse Telma Britto Rocha, 31, doutoranda em pedagogia na Faced.
Morador da rede

por Rodrigo Sombra
Quando índios blogueiros reescrevem sua história na rede, ou guerrilheiros zapatistas espalham no cyberespaço suas missivas antiimperialistas, um morador de rua ostentar domínio e e-mail em seu próprio nome já não é motivo de maior estranheza. Visto através da paisagem de mendigos do centro de Salvador, Carlos de Albuquerque, 36 anos, ainda desfila como uma avis rara. Sibilando alguma canção americana, o ex-cantor profissional, hoje residente em um canteiro no Largo dos Aflitos, perambula diariamente com o bolso atulhado de panfletos e a língua sempre a postos para fermentar o boca-a-boca positivo sobre sua página virtual.
"carlosdealbuquerque.com", responde de imediato ao perguntarem seu nome. Acrescentar à reposta o complemento típico dos sítios eletrônicos, para além do apelo marqueteiro, revela, num segundo momento, o quanto a inserção de Albuquerque no universo das pontocom está intimamente ligada a sua biografia marginal.
Após circular exaustivamente pelo interior do estado como vocalista em bandas de formatura, Carlos foi encontrar abrigo nas calçadas da capital, onde pernoita rotineiramente há pouco mais de três anos. Figurinha carimbada no circuito cultural da cidade desde então, descobriu nos centros gratuitos de acesso digital uma janela de arestas largas para sua energia criadora. "Eu comecei na internet através dos infocentros. Daí, procurei composições na internet, ouvi arranjos, entrei em contato com músicos, divulguei minhas letras e textos. Fui fuçando tudo e por último resolvi fazer o site", diz, puxando pela memória seu itinerário na web. Inaugurada há apenas quatro meses, sua página pessoal já recebeu mais de 3000 visitas, e oferece desde gravações suas disponíveis para download a escritos difamatórios contra instituições religiosas.
"O 'pessoal de rua' não tem acesso à rede. Uns não vão porque se sentem muito discriminados, outros porque não se interessam mesmo. A maioria não sabe o que é um site, um blog, um e-mail", relata Albuquerque, para quem os programas de inclusão digital ainda não alcançam esse contingente especial de infoexcluídos. De acordo com a Secretaria de Ação e Trabalho Social do Estado (Setras), 850 pessoas moram nas ruas de Salvador, conforme estimativa realizada há cinco anos. A doutoranda em educação Telma Britto Rocha, que participou de uma pesquisa sobre os Tabuleiros Digitais, projeto de inclusão sociodigital da Faculdade de Educação da UFBA, afirma desconhecer qualquer iniciativa específica no sentido de aproximar quem vive nos logradouros da cidade ao contato com a internet.
Desigualdade na Web
O recém divulgado Mapa das Desigualdades Digitais no Brasil revela alguns resultados controversos dos projetos de disseminação gratuita de acesso à web. Promovido pela Rede de Informação Tecnológica Latino-Americana (Ritla), com apoio do Ministério da Educação, o estudo afirma que apenas uma parcela de 0,9% da população baiana de baixa renda acessa a rede gratuitamente, contra 3,8% da população de renda mais alta, números incongruentes com o objetivo desses projetos de incluir setores com escassas ou nulas condições de uso da internet.
O Mestre em Educação pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), Doriedson de Almeida, observa que as políticas públicas e os esforços neste sentido são louváveis, mas ainda estão longe de serem adequadas. "Além das redes de transmissão de dados não se conectarem com as regiões mais pobres, os órgãos aplicam recursos de forma inadequada e de maneira desarticulada com as realidades e especificidades regionais".
"A minha história se tornou muito forte, causa impacto nas pessoas. Daqui pra frente, os moradores de rua serão divididos entre antes de mim e depois de mim", profetiza Carlos. Analisada isoladamente, a experiência do cantor pode até soar como uma anedota otimista do acesso à internet como forma de iluminar o pensamento criativo dos infoexcluídos. Confrontada com estatísticas desanimadoras e a marginalização extrema de quem vive nas ruas, ela se afigura muito mais como um episódio incidental do que aponta para uma tendência em curso.
Para mais informações sobre Carlos de Albuquerque, acesse www.carlosdealbuquerque.com, ou através do e-mail falecom@carlosdealbuquerque.com .
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