Por Angela Luiza da Silva Machado
Além de provocarem significativas mudanças nas organizações sociais, econômicas e política, as tecnologias digitais interferiram nos modos de perceber, pensar e agir sobre o dito mundo “real”. Se no inicio, a tecnologia (o cinema, a Tv, o rádio) distorceu a noção de tempo e de espaço, a acelerada evolução das tecnologias de transmissão digitais impactaram ainda mais sobre estas noções. Diante desta discussão surge uma concepção abstrata da realidade virtual: O conceito de “ciberespaço”, o conjunto de informações codificadas binariamente que transita em circuitos digitais e redes de transmissão de onde emerge o “espaço informacional” que fornece contornos da espacialidade do ciberespaço. E através das Homepages, dos Sites, cidadões-da-rede navegam apesar da aparente falta de correspondência entre o espaço informacional e o espaço real.
O espaço real é percebido como espaço absoluto - aquele existente antes e independente dos elementos que o ocupam, cujas características são a homogeneidade e a infinitude – e o Espaço Relativo - aquele que emerge a partir das relações entre os objetos que o compõem. A Física Newtoniana e a Geometria Euclidiana nos dão os pressupostos teóricos de compreensão do espaço no sentido absoluto, porém nos percebemos o espaço a partir das relações dos elementos e o nosso corpo. A partir de uma diferenciação entre as noções de lugar e espaço que correspondem a espaço absoluto e experiência espacial, M. de Certau postulou que a dinâmica da experiência cotidiana, organiza, circunstancia e temporaliza o espaço; por isso, apesar de concebermos o espaço absoluto, nos afinamos com a noção de espaço relacional.
Nem mesmo a nossa percepção trimendisional corresponde a uma realidade espacial objetiva. A Geometria Euclidiana difere da Geometria Fractal quando impossibilita a concepção de elementos com dimensões maiores que o bimendisional, mas, estudiosos já cogitaram que habitamos num espaço com quatro dimensões, ou seja, o “hiperespaço”, Expressão cunhada por W. Gibson no livro Neuromancer, pode ser entendida como uma alucinação experimentada por milhões de pessoas, uma representação gráfica dos dados abstraídos dos bancos de cada computador no sistema humano. Popularizada pela explosão de usuários, na década de 1990, ciberespaço, é a expressão apropriada para denominar o conjunto das informações que transitam nos servidores e terminais conectados à Internet.
Para a maioria dos usuários a Internet é o conjunto de correio eletrônico e WWW (World Wide Web). A Web resulta da associação do conceito de hipertexto com um sistema de domínio público para a transferência de arquivos entre computadores. O estabelecimento das conexões (links) entre seleções (âncoras) em arquivos digitais a serem enunciados sob a forma de texto recebeu o nome Hipertexto. Ao serem adicionados imagens e sons ao texto chamou-se de Hipermídia.
A utilização de modelos digitais tridimensionais como a linguagem VRML (um tipo de janela sobreposta) que criam modos de “mundos virtuais realistas” ou do mundo dito “real” e simulações de uma determinada versão da experiência cotidiana intensificam o caráter espacial autônomo da WWW. Assim como “enxergamos” a espacialidade do mundo físico - através dos objetos - o espaço da Web se apreende através das relações entre as páginas, (documentos identificado individualmente pelos Browsers), os links, definindo o espaço da Web como relacional.
O fato de que vermos poucas páginas através da tela bidimensional do monitor e não visualizarmos suas relações impede a construção da representação espacial da Web. Rebatendo a idéia de mapas animados, M. de Certau verifica que é uma idéia ligada a cientificação, enquanto que a construção da espacialidade se define através dos percursos. O ato de navegar é percebido como um deslocamento do ou no Ciberespaço. A seleção de um link controla o movimento em direção à outra página e a transmissão dos dados enfatiza em termos de tempo os percursos entre as páginas. Estes “caminhos” invisíveis para o olhar mapeador são percebidos na sua espacialibilidade pelo navegador.
A semelhança da Web com espaços urbanos - travessias e elementos inter-relacionados - sendo, portanto também um espaço relacional provoca uma série de metáforas de cunho arquitetônico e urbanístico. A “cidade de bits”, “ágora virtual” habitadas por netcitizens e ciberflâneurs. Em 1996. J.D. Bolter identificou características tanto nas cidades quanto n ciberespaço. Ambos têm caráter coletivo e heterogêneo, caracterizadas pela dualidade. Cada um corre trás dos seus próprios interesses, mas as suas atividades se combinam no sentido de fazer a cidade existir. Mas, diferente da cidade, a WWW é homogeneizada espacialmente, presa na tela plana de um monitor.
A analogia entre as páginas da Web e folhas de papel se esgota uma vez que as traduções digitalizadas de textos, fotografias, desenhos já poderiam ter sido realizadas antes, nestas mesmas folhas. A imagética na Web provoca a metáfora da parede grafitada na qual se projeta um filme através de uma janela. Esta metáfora se esgota pelas possibilidades que tem o usuário em interromper ou repetir os eventos e de poder estar dos dois lados da parede quando assiste e ao mesmo tempo movimenta os elementos e visualiza o outro lado.
O ciberespaço é o encontro interativo de paginas bidimensionais de representações de dimensão temporal com a inclusão de animações, de perspectivas tridimensionais, várias formas de representação em uma única tela. Os percursos entre eles definem sua espacialidade. Ao selecionar links, o usuário edita diferentes elementos, determinando, ainda que de forma restrita, o que se enuncia na tela. A inferência do tempo entre as páginas aponta para uma estrutura espacial complexa, pois é um espaço que tem elementos várias dimensões: o texto é linear, as imagens planas, ou seja, bidimensionais, o dinamismo das animações e o trimendisionalidade dos modelos VRML”.
Segundo a autora, a apreensão da espacialidade hiperdimensional pode desenvolver formas multidimensionais de raciocínio e poderia servir de ponto de partida para questionamentos dos limites da percepção humana e de suas verdades políticas, sociais e científicas. E importante: dar continuidade à discordância entre a experiência perceptiva e o conceito cartesiano de espaço absoluto. P. de Virilio adverte que: “confessar que o essencial para o olho humano é o invisível e admitir que tanto a teoria como a arte são manipulações de nossas ilusões”. A construção desse discurso rechaça a visão politíco-filosófico que não admite a idéia de formação de imagens mentais e seus aspectos qsiquico-fisiológicos.
Só na ficção, a discussão sobre espaços hiperdimensionais, e possíveis implicações da interação com as múltiplas dimensões foram abordados. O livro “Flatland” de E.A. Abbott, aborda a confrontação de universo com três dimensões, pelo personagem Square que passa a questionar a ordem social. O caráter mutidimensional da hipermídia e a diversidade das páginas da WWW dificultam em caracterizar o ciberespaço. Enfrentam resistência de conformação da sua estrutura espacial aos princípios da geometria Euclidiana, através da inclusão de elementos tridimensionais “realistas da rede e as estratégias linearizantes para reduzir o que se costuma chamar de “desorientação” típica da navegação hipertextual. Se o paradigma da representação “realista” venha nortear o ciberespaço, resta-nos saudar os mistérios do espaço trimendisional como o personagem principal de Flatland: “Oh admirável mundo novo”.
segunda-feira, 12 de maio de 2008
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